A good traveler has no fixed plans, and is not intent on arriving.
Lao Tzu
A noite já estava instalada quando aterrei no aeroporto de Hanói oriundo do Laos. Saio do terminal e ainda antes de passar na alfândega fui à procura do balcão dos vistos online que me tinha sido indicado aquando do pedido do visto feito através da internet algumas semanas antes. O pedido do visto para o Vietname é feito através de um site governamental que logo após o pagamento do mesmo nos envia um email com um documento que deve ser entregue neste respectivo balcão que ainda procuro dentro do aeroporto.
Sigo as placas que indicam o local e que acabam depois por não me levar a lugar nenhum. Pergunto e indicam-me um outro balcão para onde me dirijo de imediato.
_ Temos um problema com o seu visto! _ Dizem-me com uma cara que me deixa preocupado. _ A data de entrada especificada no documento é só daqui a dois dias e só nessa altura lhe podemos conceder o visto.
Fico em pânico e peço-lhes para dar uma olhadela no documento. Olho para o telefone para confirmar a data e é verdade. Faltavam dois dias para o início do visto. Rapidamente tomo consciência da razão desta desfazagem...
No meu plano inicial tinha planeado ficar 5 dias em Luang Prabang pelo que comprei vôo e tratei do visto com base nesse período de tempo. Mais tarde, por achar que era demasiado tempo em Luang Prabang e porque faltava tempo para o Vietname decidi antecipar o vôo em dois dias e nunca mais me lembrei de alterar o dia de entrada do visto. Conclusão, estava retido no aeroporto.
Pergunto se há alguma solução e algo que possa fazer para corrigir o problema e prontamente me dizem que ali não podem fazer nada. Que se baseiam sempre no documento que levamos das autoridades e que não o podem mudar.
Começo-me a imaginar como o Tom Hanks no filme "Terminal de Aeroporto", retido e a vaguear dentro do terminal de um lado para o outro e a dormir nos bancos das salas de embarque. Não gosto do que me varre a consciência e volto a perguntar se não há mesmo nada que se possa fazer. Depois de algumas respostas negativas, o senhor que me recebeu manda-me sentar e esperar e decide ir perguntar a um superior. Passados uns bons minutos ouço o meu nome nos altifalantes do balcão, dito numa ordem estranha e aproximo-me. Dois senhores seguram o meu documento e conversam entre si... Como em todas as situações na Ásia, parece que é sempre a primeira vez que acontece e ficam sempre todos sem saber o que fazer.
Chamam-me e dizem-me que há uma solução. Aliviado escuto com atenção e dizem-me que podem emitir um novo visto mas vou ter de pagar por isso, cerca de 45€. Quem diria... Tudo se resolve!
Com todo este tempo de espera, quando chego à zona para recolher a mala, já não está o número do meu vôo nos monitores para indicar o respectivo tapete. Vale que não existem muitos tapetes e não demorou muito até encontrar a minha mochila.
Dada a distância do aeroporto até à cidade, tinha combinado com o hotel que iria ter alguém à minha espera para me levar até lá, dado que o preço não diferia muito do táxi e teria outra segurança em relação ao trajecto que seria feito. Assim sendo, procuro ao saír alguém com uma placa com o meu nome no meio daquela multidão desordenada. Olho para a direita, olho para a esquerda, corro para a outra saída, olho em todas as direcções e nada. Decido ir comprar o cartão SIM enquanto espero, e ao voltar, mais uma vez, não encontro ninguém com o meu nome. Espero um pouco, varro de novo as duas saídas e nada. Decido então ligar para o hotel e claro, não tinham enviado ninguém. Dirijo-me aos taxis...
O primeiro dia amanhece debaixo de uma enorme tempestade. Uma chuva forte vai batendo na janela e impedindo que se consiga ver seja o que for lá fora, bem ao jeito das fortes tempestades asiáticas. Os relâmpagos acompanham e pelo atraso dos trovões vejo que não estou muito longe do centro da mesma. Desta forma é impossvel saír à rua... Decido esperar pelo fim da tempestade que não dá quaisquer sinais de querer abrandar e depois de um par de horas no quarto em que tudo continua na mesma, decido descer para a recepção. Pode ser que se sinta pressionada e me dê tréguas.
Passados uns 40 minutos no sofá da recepção e uns quantos jogos no telemóvel, a chuva abranda e permite-me finalmente saír para descobrir Hanói. O centro não é demasiado extenso e permite-me explorar a cidade da forma que gosto, a pé. Saio então com destino a Hoan Kiem.
Localizado a sul da cidade antiga fica um dos maiores lagos de Hanói, cujo nome vem de uma das mais conhecidas lendas do país, e segundo a qual, a espada do imperador Ly Thai foi recuperada aqui mesmo por uma tartaruga que nunca mais foi vista. Em homenagem à tartaruga e ao seu grande feito, foi erguida uma pequena torre numa ilha bem no centro do lago.
Um pouco mais acima e numa outra ilha que pode ser acedida através da pequena ponte Huc, fica o templo de Ngoc Son, um templo de estilo vietnamita dedicado ao General Tran Hung Dao conhecido por ter derrotado os Mongóis no séc XIII.
Um templo interessante não só pela sua arquitectura muito tradicional como pelo facto de estar rodeado de água e possuir assim mais alguma tranquilidade.
No topo norte do lago, começa a cidade antiga, a zona mais autêntica da cidade, com as suas movimentadas ruelas, mercados, oficinas de tudo e mais alguma coisa, vendedores ambulantes, e os muito conhecidos pontos de venda de comida de rua. Apesar de muito movimentada e algo caótica, é uma zona onde nos devemos perder com tempo e a pé. Cada rua, cada viela é uma surpresa e um misto muito exótico de cores, cheiros, e se nos dermos a isso, fantásticos sabores.
No Vietname é comum queimarem-se bens como televisões, computadores, carros, casas e acima de tudo dinheiro, muito dinheiro. Tudo isto se vê um pouco por todo o lado, mas claro está, não com bens verdadeiros mas sim com imitações ou falsificações. Os vietnamitas acreditam que queimando estes bens comuns do dia-a-dia os conseguem passar para os seus ancestrais e desta forma também assegurarem que nas suas próximas vidas os vão ter. Isto faz com que seja muito comum encontrarem-se estas imitações de bens para venda na rua, em especial imitações de notas que se vendem em grandes quantidades.
O passeio acaba na catedral de S. José, uma catedral de estilo neo-gótico com duas grandiosas torres sineiras e que foi inaugurada em 1886.
Ainda bem no coração da metrópole mas um pouco mais para oeste fica um dos exemplares mais bem preservados da arquitectura vietnamita, o Templo da Literatura. Fundado em 1070 pelo Imperador Ly Thanh Tong, o templo foi dedicado a Confúcio e chegou a albergar a primeira universidade do país. Hoje, além do templo e dos majestosos edifícios, possui jardins bastante interessantes e estátuas de Confúcio e dos seus discípulos.
Património da Unesco desde 2010, a Cidadela Imperial de Thanh Long foi o centro do poder militar do Vietname durante mais de 1000 anos. Um grande aglomerado de imponentes edifícios militares, muralhas defensivas e bunkers ocupam uma área significativa no distrito de Ba Dinh.
Um pouco mais a norte, o complexo do Mausuléu de Ho Chin Minh agrega dentro de harmoniosos jardins alguns edifícios de bastante importância, como o Mausuléu de Ho Chin Minh, o Palácio Presedencial, Templo da Pagode de Um Pilar e alguns museus. Isto, em frente à imponente praça de Ba Dinh.
A caminho de Ho Tay, ou Lago Oeste, páro no pequeno mas não menos interessante tempo de Quan Thanh. Ao contrário dos outros templos que visitei, este, talvez pela sua menor importância, encontra-se quase vazio e consegue finalmente transmitir aquela paz que esperamos nestes templos. Visito o templo e assisto à pequena cerimónia de uma família a queimar o seu dinheiro.
Sento-me um pouco à conversa e a absorver um pouco daquele espaço. Os templos budistas no Vietname e na China não conseguem trasmitir aquela paz e tranquilidade dos templos do Sudeste Asiático e são muitas vezes mesmo algo caóticos. Aqui em em Quan Thanh consigo encontrar alguma dessa magia e fico a aproveitar.
Uma extensa ponte liga a margem sul à margem norte do Tran Quoc, passando por uma pequena ilha onde fica o templo de Tran Quoc. Este é um dos templos mais antigos do Vietname e o que mais gostei em Hanói.
Do outro lado da ponte fica o distrito de Tay Ho, encurralado entre o lago e o rio Song Hong. Já no regresso, e por estar perto, decido visitar a ponte ferroviária de Long Bien, projectada por Eiffel e que que atravessa rio Song Hong. A ponte, bombardeada várias vezes pelos americanos e prontamente reconstruída , é hoje um dos símbolos da resiliência vietnamita.
Na entrada da ponte um sinal proíbe a passagem de peões. A travessia é dedicada aos comboios mas possui ainda assim duas vias laterias que são usadas pelas motos, uma para cada sentido, teoricamente. Não está em muito bom estado de conservação, mas ainda assim fico com vontade de a atravessar. Apesar do sinal de proibição, vejo que alguns pões o fazem e num misto de teimosia e curiosidade decido fazer o mesmo.
Um pequeno passeio ladeia a via destinada às motos. Na realidade não se trata bem de um passeio mas sim de várias placas em cimento assentes em estruturas metálicas e que em alguns casos têm uma distância algo assustadora entre elas. Por baixo não há nada e consegue-se ver o chão e o rio bem lá em baixo.
Ponho várias vezes em causa a segurança do passeio e para piorar as vertigens começam a tomar conta de mim. Ainda assim não desisto e sigo até ao final. Afinal esta é uma ponte emblemática e possui algumas vistas interessantes sobre a cidade e o rio. Há mais pessoas que o fazem...
Halong Bay
O mundo tem lugares bonitos, tem lugares muito bonitos, e depois tem lugares como Halong Bay, que nos deixam boquiabertos e nos cortam a respiração.
O dia está bonito e o sol brilha forte quando me apanham no hotel em Hanói para nos dirigirmos para Halong. Fico contente, pois um dos problemas das visitas à baía é que grande parte das vezes o tempo está escuro e nublado e a verdadeira beleza de Halong Bay não resplandece.
Demoramos um pouco mais de três horas até ao porto de Halong City, onde um pequeno barco de cruzeiro espera por nós. Aqui, a realidade é outra, com o que de pior o turismo de massas pode fazer a um local. Dezenas e dezenas de autocarros a deixarem e a recolherem centenas e centenas de pessoas. Barcos e mais barcos a lutarem para ter espaço naquele pequeno porto e a infiltrarem-se naquela azáfama da entrada e saída de turistas e de toda a logística associada.
O tempo começa a escurecer, e aquela sorte que pensei que iria ter começa a falhar, mas não desanimo. Somos encaminhados para o nosso barco e lá vamos nós.
Na realidade, Halong Bay faça chuva ou faça sol é sempre um daqueles locais fascinantes. Mal o barco se começa a embrenhar naqueles milhares de pequenas ilhas calcárias cobertas daquela luxuriante vegetação somos logo tomados por um fascínio sem igual e deixamos de conseguir pensar em qualquer outra coisa. A monotonia com que navegamos naquela imensidão, a paz e o sossego daquele mar, toda aquela envolvência deixam-nos num estado de letargia profunda sem que consigamos ter alguma reacção.
Paramos em Hang Sung para visitar a maior das grutas existentes na baía. Finda a visita, começamos um lindíssimo passeio de caiaque até Hang Luon, uma maravilhosa lagoa no meio de imponentes rochedos calcários.
O dia termina com um maravilhoso jantar no nosso cruzeiro no meio daquele paraíso e com umas boas horas de conversa com os companheiros de viagem. Várias nacionalidades ali representadas e também de várias gerações.
Abeçoado que sou, tenho um fantástico dia de sol para me fazer a despedida de Halong Bay. Começamos o dia em Titop, uma pequena ilha onde é possível aceder ao topo através dos seus mais de 340 degraus e de onde se obtém uma fabulosa vista da baía.
A ilha possui também uma pequena praia de areia onde podemos descansar e dar um mergulho após a subida ao topo. Terminada a visita, voltamos ao barco para uma última ronda antes de regressarmos.
Sapa
Acordo às 5h25 para poder apanhar o autocarro das 7h da manhã em Hanói que me vai levar a Sapa. Cerca de 5h30 de viagem até à capital do turismo do Norte do país.
Sapa é uma antiga estância de montanha criada pelos franceses em 1922. Actualmente não possui grandes vestígios desse tempo mas no fundo agora é essencialmente conhecida por ser a base para um grande número de trilhos que percorrem as montanhas do norte e atravessam muitas das aldeias com tribos locais.
Chego a Sapa a meio do dia e debaixo de um nevoeiro cerradíssimo. Não se consegue ver mais que alguns metros e torna-se difícil econtrar a direcção para a qual me devo dirigir para encontrar o meu hotel. Deixo o autocarro com a mochila às costas e lá vou eu às apalpadelas.
Tendo a tarde livre decido ir fazer uma caminhada por um dos trilhos mais curtos, até Cat Cat. Começo a descer de Sapa e à medida que vou descendo o nevoeiro começa-se a dissipar.
O caminho vai-se desenrolando pelo meio de campos de arroz, outros cultivos e pequenos aglomerados de casas até ao vale onde passa um pequeno ribeiro e onde os campos dão lugar à floresta. Preparo-me para atravessar o ribeiro por uma ponte suspensa quando começa a chover torrencialmente. Abrigo-me num telheiro de um pequeno ponto de venda onde uma senhora vende bebidas, alguns snacks e frutos secos. A chuva parece não querer parar e a senhora, sem conseguir falar muito comigo, oferece-me uma cadeira e instala-me confortavelmente sob o telheiro, oferecendo-me alguns frutos secos de seguida. Tomo então uma cerveja para acompanhar até que a chuva passe.
Passado algum tempo a chuva dá então sinais de querer abrandar e decido arriscar e partir. Despeço-me e agradeço muito à senhora e ponho-me a caminho até Cat Cat.
Cat Cat é uma pequena aldeia tribal mas já algo descaracterizada pelo turismo, a grande maioria dele nacional. Ainda assim, a aldeia é interessante e mostra muito do modo de vida destas tribos locais.
No final da visita, quando já me preparava para começar a subir para Sapa, vejo um grupo de rapazes com um ar algo suspeito e cara de comprometidos nas traseiras de uma casa com um maçarico a queimarem o pelo a um animal. Fiquei curioso e aproximei-me para tentar perceber que animal era, mas rapidamente me arrependi ao perceber do que se tratava... Um gato.
O segundo dia em Sapa acordou na mesma, com um nevoeiro cerrado que continuava a não me permitir ver fosse o que fosse da cidade. Tinha agendada uma caminhada pelo vale Muong Hoa e por algumas das aldeias tribais e estava bastante expectante, pelo que, ainda antes da hora marcada lá estava eu no local combinado.
O grupo foi-se juntando a pouco e pouco. Um casal de japoneses, um malaio, um americano, dois amigos israelitas, franceses, britânicos e mais uma ou outra nacionalidades. Um grupo de senhoras com vestes tribais começa-se também a aproximar e a rondar o grupo. Vão-se apresentando e em pouco tempo percebo que serão as nossas guias pelo vale.
Ainda o sinal de partida não tinha sido anunciado e somos brindados com uma chuvada que nos começa a deixar preocupados com a nossa caminhada. Eu estava preparado e tinha um impermeável, o qual vesti de imediato. Outros não tanto e decidem de imediato comprar protecção numa loja de desporto que estava mesmo ali ao lado...
Já passa algum tempo da hora quando somos informados da partida. Uma senhora que já se me tinha apresentado segue ao meu lado e começamos então a descer.
O início ainda pela estrada é fácil, ainda que com alguma inclinação, mas não tardou até sermos desviados para um trilho estreito e lamacento que ia dividindo alguns campos de arroz. Eu vinha preparado com calçado adequado, ao contrário de alguns membros do grupo que parecia terem vindo ao engano. O japonês vinha de chinelos de enfiar no dedo, o americano e mais algumas pessoas vinham de ténis.
A chuva vai dando tréguas de tempos a tempos, mas o trilho começa a ficar cada vez mais enlameado e escorregadio. As nossas guias, de galochas, parecia que estavam a andar num piso ompletamente normal e iam-nos olhando com algum gozo.
Até que o trilho começa a ganhar grandes declives, com alguns degraus na terra e cobertos de uma lama quase líquida. Com calma vou conseguindo descer, algumas vezes com uma mãozinha da guia que se continua a movimentar de forma bastante confiante e segura. Quem diria que as galochas funcionariam tão bem aqui.
Sou interrompido por um grito e olho para trás. Vejo o americano de costas no chão e coberto de lama dos pés à cabeça. Passados alguns minutos, um novo grito. É a vez do japonês sentado no chão.
As cenas vão-se repetindo. Ora um, ora outro, ora de costas, ora de barriga no chão. Eles chegam ao ponto de se descalçarem e arriscarem fazer a caminhada descalços. O americano já mal se reconhece no meio de tanta lama... O japonês desiste e volta para trás.
Os meus sapatos, apesar de bastante enlameados, passam neste complicado teste e lá me vou aguentando. As condições são muito difíceis mas toda aquela paisagem é uma grande recompensa para o esforço.
Socalcos de um verde muito vivo e bonito moldam as encostas das montanhas que nos rodeiam, interrompidos aqui e ali por algumas manchas de floresta e alguns campos de diferentes cultivos. De tempos a tempos alguns aldeões trabalham os campos, abrem comportas e reparam os socalcos. Atravessamos aldeias, terrenos e quintais e convivemos com as tribos e em especial com as crianças. Apreciamos os animais que vão criando, como porcos (uma raça de porco preto semelhante à nossa), galinhas e búfalos. Ali tudo é autêntico, tudo é natural...
O tempo melhora e chegamos à aldeia de Y Linh Ho, onde somos esperados para o almoço.
Deliciamo-nos com mais uma refeição típica da região, sempre com muitos vegetais frescos à mistura. A gastronomia vietnamita é de facto muito rica e bastante saudável.
Seguimos caminho pelo vale até ao ponto final da caminhada e onde umas carrinhas já nos esperam para nos levar de volta ao topo da montanha e a Sapa. Necessito mesmo de uma chuveirada e começo a imaginar o difícil que será limpar os meus sapatos...
Saio para lanchar depois da árdua tarefa de me lavar a mim e aos meus sapatos, que apesar de tudo estavam bem mais encardidos do que eu e onde a lama ficou tão entranhada que acredito que nunca mais vá saír. Quero também dedicar-me um pouco à leitura e escolho um dos muitos cafés da cidade. Instalo-me confortavelmente num alpendre bastante simpático e peço um sumo de fruta natural. Leio, planeio os próximos dias e vejo os 3 metros de cidade que me são permitidos no meio daquele nevoeiro cerrado.
É já noite quando tento saír mas uma chuva forte estraga-me os planos. Espero que passe mas não passa, até que o dono do café aparece ao pé de mim com uma capa para a chuva. Diz-me e insiste que posso ficar com ela, mas eu sinto-me um pouco constrangido com aquela situação e não quero aceitar. Tanto insiste, e dado eu estar a ver que a chuva não vai passar tão depressa, decido aceitar mas proponho pagar-lhe a capa. Diz-me prontamente que não com um sorriso e para seguir...
Chega a hora do jantar e tenho planos para ir a um dos muitos conhecidos churrascos da cidade e de provar inclusivé o tão famoso leitão da zona. Percorro algumas ruas, escolho o que me parece melhor e arrisco.
As doses davam perfeitamente para mais do que uma pessoa mas eu quero provar tudo e vejo-me de repente na frente de um majestoso banquete. O churrasco é bom e o leitão também. Crocante e um pouco como o nosso. Mas falta aquele molho...
Ao terceiro dia tudo muda, e este meu último dia em Sapa permi-te finalmente ver a cidade e todos aqueles edifícios nas encostas que me rodeiam. O tempo ainda amanhece nublado, mas o nevoeiro desapareceu por completo. É estranho ter estado ali aqueles dias sem sequer imaginar que a cidade seria assim. É estranho ver os picos e os recortes daquelas montanhas imponentes e que até então nem sequer existiam para mim.
Faltam ainda algumas horas para o autocarro que me levará de volta até Hanoi e decido ir até Tram Ton, um pequeno parque natural a cerca de 15Km da cidade e conhecido pela sua densa e impenetrável floresta e pelas suas cascatas. Tento negociar um taxi que me possa levar lá. O primeiro pede 500d e leva-me a desistir. O segundo já baixa para 400, e o terceiro fixa nos 250. Temos negócio!
No caminho para Tram Ton o taxista pára numa pequena banca de venda de fruta e ausenta-se por um pouco. Quando regressa traz um pequeno saco com algumas ameixas que me oferece e com as quais me delicio no caminho até ao nosso destino.
Sigo um trilho circular mas muito mal indicado o que me leva a perder-me algumas vezes. O estreito trilho vai rompendo pelo meio da floresta, atravessa algumas vezes os riachos e passa por algumas cascatas verdadeiramente impressionantes.
Sapa é uma cidade lamacenta e bastante esburacada e que nasceu como uma espécie de estância de montanha dos colonos franceses que aqui se refugiavam do intenso e húmido calor do verão vietnamita. Actualmente funciona como zona de lazer dos nacionais que também aqui fogem ao calor, e como centro de caminhadas para os estrangeiros que querem explorar as montanhas da região.
É uma cidade com um crescimeno impressionante e uma espécie de Algarve da montanha. Por todo os lado são visíveis guindastres e torres em construção e num curto espaço de tempo a cidade estará toda transformada.
Phong Nha
Vôo de Hanoi para Dong Hoi e de imediato apanho uma táxi até Son Trach, para uma viagem de cerca de uma hora que me custa mais que o próprio vôo, numa verdadeira low cost vietnamita. Son Trach é uma pequena vila que serve de base para quem quer explorar o impressionante parque natural de Phong Nha Ke Bang.
Pong Nha possui algumas das formações calcárias mais antigas do planeta e um gigantesco emaranhado de grutas e rios subterrâneos. É um dos paraísos da espeleologia e um dos lugares mais impressionantes em termos de paisagens naturais do país.
Instalo-me num pequeno hotel familiar bem no centro da vila e aproveito o resto do dia para um passeio de bicicleta pelas redondezas.
O acesso ao parque natural é bastante restrito e para o visitarmos temos de o fazer através de uma das muitas agências existentes em Son Trach. Marco o meu passeio através do hotel e fica combinado que me apanham na manhã seguinte na entrada do mesmo.
O dia está bonito e desço para o pequeno almoço na ampla sala que funciona como garagem, recepção, restaurante e sala de estar da família que gere o negócio. Como a minha panqueca de banana numa das mesas do canto ao mesmo tempo que o bebé da família assiste a vídeos no youtube e a mãe vai dando conta da cozinha. O filho mais velho dá conta da recepção e vai jogando alguns jogos no computador.
Não tarda até chegar um rapaz da agência que vai organizar o meu passeio. Relembra-me do que tenho que levar e lá vamos nós. 100 metros à frente pára em frente ao pequeno escritório da empresa e pede-me para esperar. Faz uma série de telefonemas e passados alguns minutos vem ter comigo e pergunta-me:
_ Importas-te que em vez de irem numa carrinha vão numa mota? É que és a única pessoa deste tour, e assim mandava-te apenas com uma nova guia nossa que anda a precisar de praticar o inglês e só sabe conduzir a mota.
_ Sem qualquer problema! _ Respondo! Temos aventura!
Passados alguns minutos chega finalmente a minha guia. Encontram um capacete que quase me serve e lá vamos nós!
Visitamos algumas partes do parque, alguns trilhos, algumas cascatas e vamos praticando o nosso inglês. A minha guia sempre muito profissional e com muita vontade de aprender.
O ponto alto é Paradise Cave, um enorme complexo de grutas com uma infinidade de formações no seu interior bastante impressionantes. Foi também possível visitar uma das grutas em que tivémos de caminhar com lama até à cintura no meio da escuridão e num ambiente algo claustrofóbico, caiaque num dos rios e um longo e vertiginoso slide onde aterrei com o rabo no chão a toda a velocidade e que me fez passar largos minutos a ver estrelas sem me conseguir mexer.
Após o regresso à vila e na entrada do hotel fui abordado pelo rapaz, filho dos donos, que gostaria de me levar a jantar num restaurante típico ali perto. Aceitei com satisfação e combinámos assim uma hora.
Há hora marcada compareço na recepção, onde estava um jovem casal que também foi convidado para o jantar. O casal, ele italiano e ela galega estavam a percorrer o sudeste asiático já desde a Australia, onde tinham vivido nos últimos anos, e pretendiam ir até o mais próximo possível da Europa onde se iriam instalar a seguir.
O pequeno restaurante não era mais que um pequeno balcão e algumas mesas espalhadas pela rua. Seguimos as sugestões do nosso anfitrião e mais uma vez nos deliciámos com a comida que nos foi sendo trazida. No final, o rapaz pede a conta e diz que o jantar é por conta dele, o que não foi aceite nem por mim nem pelo casal, que no fim de muito insistirmos lá pagámos nós o jantar ao rapaz.
Hué
A viagem entre Son Trach e Hué foi feita num dos Sleeping Bus que percorrem as grandes distâncias do país durante a noite e que estão equipados com camas em vários níveis tipo beliche. A viagem era de apenas 4 ou 5 horas e foi feita durante a manhã tendo apanhado um desses autocarros que parou na vila e mesmo em frente ao hotel onde estava hospedado.
Para minha grande sorte fui uma das primeiras pessoas a entrar e pude-me instalar de imediato. Entraram mais alguns jovens e foi quando começou a confusão. O autocarro estava com overbooking e além de não haver lugar para todos, não havia espaço para as malas. Mala para aqui, mala para ali, pessoas para aqui, pessoas para ali e lá seguimos, entalados na montanha de malas e pessoas sentadas no corredor.
Hué continua a ser um dos símbolos do imperialismo vietnamita. Apesar de já não ter a imponência de outros tempos, devido ao grande número de edifícios destruídos durante a guerra, Hué é ainda assim uma cidade grandiosa com as suas muralhas e a sua cidadela bastante sumptuosos.
O autocarro deixa-me mesmo no centro da cidade. Não estou longe do hotel e apesar do calor extremo que se faz sentir decido ir a pé até lá. A temperatura está altíssima e é até ao momento a cidade mais quente por onde passei.
Permaneço no hotel até a temperatura baixar um pouco e me ser possível visitar a cidadela sem um grande sacrifício. A cidadela foi construída entre 1804 e 1833 e está no centro de uma grande fortificação que contém 10Km de muralhas e 10 portas de acesso.
O interior está dividido em várias secções, com o centro imperial, a cidade púrpura e alguns templos. Algumas residências fazem também parte do complexo assim como alguns edifícios militares.
Não muito longe da cidadela fica o grande mercado de Dong Ba, que bem ao estilo vietnamita vende tudo o que possamos imaginar. Destaque para a zona de frescos e de produtos alimentares onde se encontra também de tudo.
Hoi An
O trajecto entre Hué e Hoi An é feito de carro com um motorista privado. O preço é bastante simpático e desta forma, além de ser bastante mais confortável, é possível fazer algumas paragens a meio para visitar alguns pontos interessantes, como a praia de Lang Co, uma das mais bonitas da região, a porta de Hai Van Quan com o seu olhar altivo sobre Da Nang e a própria cidade e estância balnear de Da Nang.
Hoi An é tudo aquilo que temos no nosso imaginário sobre o Vietname. Uma vila bastante acolhedora com uma incrivel atmosfera e um estilo arquitectónico aconchegante. Pessoas a passearem na rua com os seus chapéus típicos, vendedores ambulantes e muito comercio tradicional.
É também conhecida como a vila das lanternas e onde todas as ruas estão decoradas com lanternas das mais variadas cores. Chego a Hoi An à noite e não esquecerei nunca o impacto deste meu primeiro passeio na cidade.
Todos os espaços estão elegantemente decorados, como os restaurantes, os bares, os pequenos comércios, e todos têm um ar extremamente acolhedor e simpático. É uma cidade com um grande romantismo.
Todo o centro histórico se conhece muito facilmente a pé e deve ser conhecido a pé. Cada rua, cada canto, cada praça tem o seu encanto. Edifícios coloniais, tradicionais, Templos, a ponte Japonesa, os canais, o rio, os mercados, tudo isto nos arrasta para este mundo de magia.
Aqui é possível visitar alguns dos melhores restaurantes do Vietname e saborear o que de melhor a gastronomia vietnamita tem.
A não perder é também o mercado de Hoi An, que além de tudo o que lá se pode encontrar, tem também uma secção com pequenas bancas onde se prepara e vende comida. Aqui podemo-nos sentar ao balcão de qualquer uma destas bancas e saborear alguns dos melhores pratos da região a preços bastante convidativos.
A poucos quilómetros fica a praia de Cua Dai, uma extensa e paradisíaca praia de areia branca que ainda mantém viva muita da cultura e tradições locais e sem se ter ainda rendido à massificação do turismo.
Com saudades do mar aluguei uma bicicleta para me deslocar até lá e escolhi uma das muitas concessões existentes, um pouco mais a norte onde as praias são melhores. Hidden Beach, chamam-lhe, e diz a placa que me convence a entrar.
Oferecem-me um parque para a bicicleta, um olho na mesma e uma cadeira de praia em troca de algum consumo. Observo os pescadores e os seus botes redondos com que saem para a pesca. Observo os locais na praia e um disputado jogo de futebol. Observo o mar e um pôr-do-sol inesquecível...
Isto sim é o paraíso. Isto sim me preenche.
Gosto tanto que volto no dia a seguir para os meus últimos momentos em Hoi An. Momentos ainda mais inesquecíveis e que jamais esquecerei.
Ho Chi Minh
Chego ao aeroporto de Da Nang e recebo a notícia que o meu vôo para Ho Chi Minh está atrasado. Só sai à 1 da manhã o que me vai fazer chegar tardíssimo à grande metrópole do sul do país, a antiga Saigão.
Ho Chi Minh é a mais cosmopolita e vibrante cidade do Vietname. Uma cidade com uma grande vitalidade que me fez lembrar a Bangkok do início dos anos 2000.
Deixo-me ir nas ruas e grandes avenidas da cidade. Deixo-me levar pelos sentidos, pelas multidões e pelos instintos. Bairros tradicionais, arranha-céus, Palácios, templos e até uma Catedral de Notre Dame.
Um pouco mais a norte visito o templo de Jade, um templo algo caótico como todos os outros mas bastante interessante e acom alguns detalhes incomuns.
Ao saír, sou surpreendido por uma tempestade impressionante com chuva do mais torrencial que podemos assistir. Sou forçado a esperar mais de uma hora para que a chuva passe, e no final mais meia hora para que o nível da água desça.
Assisto ao caos de Da Kao e sigo rumo ao hotel...
Cerca de 40 Kms a norte de Ho Chi Minh fica a região de Cu Chi, conhecida pelos seus tuneis utilizados pela população local durante a guerra com os Estados Unidos. É um dos símbolos da tenacidade e da persistência do povo vietnamita e desempenharam um papel muito importante durante a guerra. Os túneis, que chegaram a medir mais de 250Km, eram um importante meio de comunicação e coordenação entre as tropas localizadas nos vários enclaves.
Durante a visita é possível entrar num dos túneis e visitar o seu interior. Existem alguns avisos em especial para cardíacos, mas nada de muito especial. Quando confrontado se também iria entrar o guia responde prontamente:
_ Não, que já experimentei e os túneis são muito apertados e sem oxigênio.
Fico a pensar que está na brincadeira, e apesar de não gostar de sitios fechados e muito apertados decido entrar. No fundo é apenas uma demosntração e o trecho deve ser pequeno.
Não podeia estar mais enganado! Além de os túneis serem extremamente baixos e ter de andar quase de gatas, este parecia não ter fim... Andei, virei à direita, à esquerda, mais direitas e mais esquerdas e aquilo parecia não acabar. Com um grande auto-controlo lá cheguei ao fim mas sempre a pensar como podem mandar as pessoas atravessar o tunel daquela forma sem que lhes seja dada mais informação?
Phu Quoc
A primeira coisa que me vem à cabeça quando penso em Phu Quoc é, lixo! A ilha, que poderia ser um paraíso está repleta de lixo. Há lixeiras a céu aberto atravessadas pelas estradas de acesso aos resorts de luxo, há lixo e mais lixo espalhado por toda a ilha, lixo e mais lixo em todas as praias.
Phu Quoc é uma espécie de Samui dos anos 90 mas que dentro de muito pouco tempo será a Samui dos anos 2010 com o factor lixo à mistura. Uma ilha onde actualmente se constrói em todo o lado e onde as infra-estruturas continuam deficitárias.
Fico num hotel na zona noroeste da ilha, felizmente a zona com menos lixo tanto em terra como nas praias.
A ideia de vir para Phu Quoc era a de poder descansar uns dias da viagem e do facto de andar sempre de um lado para outro, ainda antes de embarcar rumo à Europa. Não esperava a ilha assim tão suja, mas o objectivo principal foi cumprido.
Consigo ainda alugar uma mota para explorar a ilha e todos os seus recantos. O único problema foi ter-me esquecido de me proteger e ter apanhado um valente escaldão nas pernas e braços.
No final, tento comprar um bilhete para o ferrry que me levaria a Ha Tien e onde teria de apanhar um autocarro com destino a Phnom Penh no Camboja. O último autocarro parte por volta da hora de almoço e como tal teria de apanhar o primeiro ferry, às 8 da manhã.
Recebo a notícia de que o ferry das 8 está esgotado e que vou ter de ir no das 12h. Faço contas, consulto os horários em Ha Tien e vejo que não tenho hipótese de apanhar o autocarro. Ainda assim arrisco. Estamos na Asia e há sempre uma solução!
A entrada no ferry é caótica mas lá se vai desenrolando. Tomo o meu lugar mas mal a viagem se inicia noto que posso vir para o topo do ferry, para o convés. É o que faço para apreciar melhor a viagem que vai durar bem mais do que uma hora.
Ao chegar a Ha Tien apanho um taxi até ao posto de turismo, de modo a saber se têm alguma solução. Sou atendido por uma senhora já de alguma idade que me diz que sim, que há sempre solução e que vai estudar a melhor hipótese. Fico algum tempo à espero e no final diz-me que já sabe como vamos fazer.
Pergunta-me pelo visto para entrar no Camboja e digo-lhe que pretendo tirar na fronteira ou então ali em Ha Tien se for possível. Prontamente me responde que também pode tratar do visto ali e pede-me os meus dados, alguma documentação e vinte dolares. Como não tenho ainda dólares também se prontifica a trocar-me dinheiro.
Passado mais de 1h, e eu já sem saber bem o que iria acontecer, chega uma pessoa que lhe entrega uma carrinha de 9 lugares e ela de imediato manda-me entrar.
_ Vou aqui? _ Pergunto.
_ Sim, vamos, eu levo-te.
Bom, confio na senhora e lá vamos nós.
Paramos na primeira bomba de gasolina, onde abastece a carrinha e mete água no motor. Seguimos até à fronteira.
Já na fronteira, ainda do lado do Vietname, manda-me saír da carrinha e esperar por ela na entrada do edifício. Passados alguns minutos junta-se a mim e entramos. Pede-me o passaporte e dirige-se ao balcão. Vou atrás e ordena-me que me sente! Bom, confio...
Passados uns minutos vem ter comigo, devolve-me o passaporte e diz-me para atravessar o controlo a pé, o que faço de imediato. Chegado ao outro lado, já ela está à minha espera e dirigimo-nos para a fronteira do lado do Camboja. Pede-me de novo o passaporte, vai para o balcão e diz-me para esperar sentado. Chama-me de seguida para ir fazer o controlo de saúde e dá-me de novo o passaporte. Está tudo ok, saímos e lá vamos nós em direcção a Kampot.
Vamos algo devagar e começo-me a interrogar se vamos assim até Phnom Penh. Mas chegados a Kampot as minhas dúvidas desaparecem e sei que vou passar para uma outra carrinha de 9 lugares de uma outra empresa que me levará até ao destino final...
Laos & Vietnam 2017














































































































































































































