06 juillet 2009
Namibia 1 - Um Sábado de Aventura
Um repentino e inesperado convite para participar num pequeno projecto trouxe-me de novo a terras Africanas. Namíbia, o destino, uma semana e meia, a duração. A curta estadia traz um problema acrescido, o trabalho consumirá mais tempo e não permitirá grandes passeios turísticos. Para piorar é-me exigido que permaneça durante o único fim-de-semana que cá estou por perto de modo a poder fazer um melhor acompanhamento da rede e poder intervir em caso de necessidade.
A viagem durou cerca de 24h. Marcação de última hora levou a que andasse de aeroporto em aeroporto, primeiro Londres, depois Joanesburgo, até aterrar por fim no Aeroporto Internacional de Windhoek, capital da Namíbia. Chegada sem sobressaltos, pego na bagagem e dirijo-me ao Rent-a-Car para levantar o carro que me estava reservado. Procedimentos habituais e meto-me à estrada. 40Km separam o aeroporto de Windhoek, numa estrada larga, bem asfaltada, de rectas enormes a atravessar um enorme planalto de paisagem terrivelmente seca mas bastante encantadora. África no seu melhor!
E digam lá que não é um prazer viajar aqui…
Cerca de 30Km depois a paisagem começa a mudar. Entramos na zona de montanhas com o relevo a ficar bastante acidentado. A estrada começa a serpentear pelos vales constantemente secos mas de um bonito dourado da vegetação seca. Atravessa rios sem água, contorna colinas e penhascos e por fim desemboca na Av Dr Sam Nujoma, uma avenida já dos subúrbios da cidade. Aparecem as primeiras urbanizações e alguns espaços comerciais. Imediatamente dá para sentir que a cidade está bastante bem organizada e com uma boa manutenção das principais infra-estruturas. Ruas e passeios bem cuidados, limpos e espaços públicos bem mantidos.
Os primeiros dias são passados a trabalhar, muitas das vezes até noite dentro. Mentalizo-me de imediato que não terei grande tempo livre para conhecer pelo menos a cidade. Os planos que havia feito reservaram o fim-de-semana para uma ida ao sul, a Sossusvlei para ver as famosas dunas alaranjadas e um dos postais da Namíbia. A cidade seria visitada aos poucos durante a semana. Infelizmente os planos começam a falhar, e terei de optimizar melhor o tempo do fim-de-semana.
Chega por fim a sexta-feira e a terrível notícia que terei de trabalhar no sábado. Operações na noite de sexta-feira que exigem um acompanhamento ao longo de todo dia de sábado. Não podia ser pior…
Sábado de manhã, acordo ao som da empregada a bater e do seu irritante “House keeping!”. Olho para o telefone, ainda é cedo e tenho um sms. O meu colega informa-me que as operações correram mal e que foram adiadas para a noite de sábado. Bonito, agora nem sábado nem domingo, mas…
Olho de novo para os mapas, consulto o guia e decido perguntar na recepção aos locais que muitas vezes são bastante mais precisos. Sossusvlei fica a uns 350Km de Windhoek e dependendo das condições da estrada, se demorasse umas 4 horas de viagem poderia ir e vir no mesmo dia e ainda chegaria a tempo de participar nas operações. Segundo a recepcionista a estrada é boa e a viagem deve demorar umas 3 horas. Acho estranho, pergunto pelo piso e se qualquer carro pode circular ou se é necessário um 4x4. No mapa a estrada aparece como sendo de gravilha. Responde-me de novo que a estrada está boa e que um carro normal pode circular. Bom, decido arriscar. Corro para o quarto, meto uns quantos bens necessários na mochila, pego no carro, estação de serviço, ATM para levantar dinheiro, compro água, alguma comida e meto-me ao caminho.
Apanho a estrada C26. Está asfaltada e em boas condições. Ando alguns quilómetros e a esperança de ver as dunas renasce. “Jusqu’ici tout va bien” digo para mim próprio. Se for sempre assim safo-me. Mas depressa o entusiasmo se desfez, passados uns 15Km o asfalto acaba e começa a gravilha. Sigo em frente ainda sem saber o que fazer. A paisagem é deslumbrante.
Continuo sempre com o dilema do sigo/não sigo a matutar no juízo. Andei cerca de 10 Km na gravilha e por fim consciencializo-me e desisto. O meu carrito não vai aguentar mais de 300Km nestas condições e vou demorar umas 5 horas a chegar. Pior ainda, a probabilidade de furar um dos pequenos pneus é enorme e pode acontecer a mais do que um, o que no meio do deserto não é um panorama nada apelativo, ainda mais estando sozinho. Dou meia volta e regresso a Windhoek.
Ao percorrer a mesma C26 mas no sentido inverso vou pensando no que poderei fazer para preencher o meu sábado. Lembrei-me então de uma reserva não muito longe de Windhoek onde é possível fazer caminhadas por alguns trilhos no meio da vida animal. Segundo os responsáveis, a reserva não possui animais perigosos e é possível passear pela reserva a pé.
A caminho da reserva de Daan Viljoen tenho de parar num controlo policial na estrada, onde surge um polícia bastante mal encarado e com cara de quem quer arrancar uns trocos. Dá a volta ao carro como que quem procura algo com que implicar, vê os selos no vidro e vem ter comigo. _Are you from Namíbia? _ Pergunta num tom rude. Respondo que não, ao que ele lança de seguida: _So where are you from? _ Respondo que de Portugal. A cara do polícia muda radicalmente. Do seu ar carrancudo passa para um ar bastante mais simpático e alegre. _ Ahhh! Portuguêsss!!! Como essstásss? _ Respondo: _ Tudo bem! _ You can go… _ E faz-me um sinal para seguir. Parece que o ser português na Namíbia me livrou de algumas implicações…
Uns minutos depois chegou ao portão de entrada da reserva. Uma senhora vem ter comigo, preenche um formulário com os dados do carro e entrega-mo dizendo que o tenho de apresentar na recepção, alguns Kms depois. É o que faço. Estaciono, entro, pago, e é-me entregue um mapa, ou melhor, uma fotocópia de uma tentativa de mapa desenhado à mão e com os principais trilhos a seguir. Existem 3, um de 3 Kms, outro de 9Km e ainda um outro de 32Km que abrange a quase totalidade da reserva. Opto pelo de 9 e meto-me ao caminho. Notei que havia apenas mais um carro no parque de um casal de meia-idade que, segundo me apercebi, apenas ia dar uma volta de carro.
Informaram-me ainda que todas as instalações da reserva, como o restaurante, o parque de campismo e os apoios estavam fora de serviço. Parece que está a sofrer uma remodelação e que está tudo em obras. Para mim tem um aspecto mais de abandono do que de remodelação e isso notei logo quando tentei apanhar o meu trilho. Foi preciso “apalpar” um pouco até dar com o início e com a pequena e enferrujada placa que o indicava. O início é coincidente com o trilho de 32Km e começa no leito de um pequeno e seco rio.
A temperatura está fresca mas ao sol o calor aperta. É incrível como passo de uma sensação de calor ao sol para frio quando estou à sombra das árvores. Vou alternando…
Existem bastantes vestígios de animais, pegadas, algumas de grande dimensão, fezes um pouco por todo o lado e alguns barulhos que se vão escutando de vez em quando. Pelo tamanho de algumas pegadas fico com algum receio. Há animais de grande porte e selvagens, pelo que nunca se sabe que atitudes podem ter. É aí que percebo que não deveria ter vindo sozinho. Uma caminhada destas, tão longa e num parque selvagem sem qualquer companhia é um grande erro. Mas já cá estou e não vou desistir.
Uns babuínos atravessam o trilho um pouco mais à frente e desaparecem por detrás dos arbustos. Com este silêncio e com o tipo de solo sou facilmente detectado Os meus passos sobre as pequenas pedras da gravilha fazem algum ruído, o que afugenta os animais. Isso impede que consiga tirar-lhes fotos, pois só os vejo mais ao longe e a minha máquina não possui grande zoom.
Após ter percorrido cerca de 2 Km, noto que o trilho se aproxima da estrada principal de acesso à recepção e chega mesmo a passar a poucos metros dela. Segundo o mapa, o trilho afasta-se da estrada o que me leva a pensar que em alguma parte do meu percurso me enganei. Durante estes 2Km não existiu qualquer informação à excepção de 2 ou 3 ferros pintados de branco e espetados no chão. E isso ainda muito no início. Fico na dúvida, olho para o mapa mais algumas vezes e decido voltar atrás. A última coisa que quero é perder-me por seguir um trilho errado.
Na volta, encontro um outro trilho que se dirige para o sentido oposto da estrada. Talvez seja aqui que me enganei e entro nele para ver se faz mais sentido, ainda que sempre na dúvida. Este, leva-me a uma zona um pouco mais aberta, onde avisto o grupo de babuínos, com um grande macho de guarda e que dá sinal logo que me vê. Afasta-se mas sempre a controlar-me e a emitir uns rugidos ameaçadores. Afasto-me o mais possível do grupo de babuínos e dou de caras com um grupo de javalis. Bom, pelo menos valeu a pena esta alteração de percurso. Sigo mais um pouco para ver onde me leva e entro numa zona que me é familiar. Fiquei com a impressão que já lá tinha passado e não foi difícil confirmar isso, pois ainda eram visíveis as minhas pegadas no sentido inverso. Decido continuar para trás até encontrar algo que me diga que estou no trilho certo. Voltei quase até ao início, onde encontrei um dos ferros branco. Decidi acreditar que são uma indicação válida. Bom, se aqui estou bem, então vou voltar a fazer o trilho principal a ver se encontro alguma alternativa…
Volto a passar pelo espaço aberto onde o babuíno ainda se encontra e mais uma vez não fica feliz com a minha presença. Sei que o estou a provocar e o melhor mesmo é afastar-me o mais possível dele.
Caminhei, caminhei, caminhei e por fim lá estava de novo junto à estrada principal…
E agora que faço? Sigo e acredito que o mapa está mal desenhado? Ou desisto e volto para trás? Bom, não andei estes Kms para desistir. Optei por seguir o trilho e sempre a controlar o tempo e a distância, para que, em caso de me sentir perdido e perceber que o trilho não é este poder voltar atrás, à estrada principal e depois até à recepção.
O trilho começou a ficar bastante mais acidentado. Comecei a subir e a descer montes e sem nunca ter a certeza que estava no caminho certo. Tinha também a pesar o facto de ser obrigatório estar na recepção antes das 18h e de não poder andar por ali a vaguear após o pôr-do-sol, o que se pode tornar perigoso. Sabendo o tempo que estava a demorar a percorrer esta nova parte e controlando as horas segui com alguma segurança.
No entanto, a segurança ia diminuindo à medida que ia avançando. Não me agradava a ideia de percorrer aquele mesmo caminho de volta, pois era muito acidentado e difícil. Em frente, também não estava certo que chegaria ao meu destino.
Segundo o mapa, estaria a entrar na zona onde é mais frequente encontrarem-se as zebras e logo após teria de voltar à direita num novo trilho. De facto encontrei algumas zebras que se afastaram mal deram pela minha presença. Talvez um sinal que esteja bem… Um pouco mais à frente existe de facto um caminho à esquerda. Bom, talvez esteja bem, e lá segui por esse caminho. Vejo mais alguns animais e o passeio até poderia estar a ser bastante interessante não fosse esta dúvida constante e o estar a caminhar na incerteza. Para piorar, este novo trilho toma uma direcção diferente da que está no mapa. Vejo pela posição do sol que me afasto um pouco do ponto para onde me devia dirigir. Aumenta a dúvida e o receio de ter de voltar a fazer todo aquele caminho de volta. Já lá vão alguns kms.
Com o decorrer do passeio aumenta a dúvida. O trilho segue de facto uma direcção que eu não esperava e é então que defino uma meta. Se no cimo daquela colina me aperceber que o trilho mantém esta direcção errada, volto para trás. Chegado ao cimo da colina tenho outra em frente. Mudo a minha meta para o próximo cume. Repito o acto por mais duas vezes até que chego a um ponto em que decido desistir. Mantém-se a direcção errada, estou-me a afastar e começo também a ter receio de estar no trilho dos 32Km. Olho em volta mais uma vez antes de voltar para trás até que… No meio da vegetação encontro um daqueles ferrinhos pintados de branco. Arrisco? Sim. Chegado ao ferro, vejo um mais à frente. Nesta parte o trilho desfez-se no meio dos arbustos e deve ser por isso que o assinalaram. Encontro mais uns 3 ou 4 ferros que me guiam pelo meio da seca vegetação e desemboco num novo caminho. Ainda não estou seguro que estou correcto mas este novo caminho toma a direcção certa, para norte. Arrisco? Sim.
Esta parte do percurso continua bem acidentada. É no entanto bem mais interessante em termos de observação de aves. Ao longe não vejo nada que me seja familiar. Esperava visualizar a recepção ou algum outro ponto perto, mas não consigo. Mantêm-se as dúvidas.
Entro na fase do risco. Começa a ser tarde para voltar atrás. O sol já se começa a esconder por detrás dos montes mais elevados. Os vales mergulham na sombra e ou de facto este é o caminho certo, ou vou ter problemas…
Até que, ao descer um dos montes, vejo ao longe, do outro lado do vale uma pequena placa em branco. Talvez seja alguma indicação e acelero o passo. Atravesso mais um rio seco e subo pelo trilho que me leva à placa. As pernas já começam a dar de si, foram muito kms já percorridos. Ao chegar tudo muda e acho que nunca fiquei tão feliz por ver uma placa. “Hiking End” diz, apontando para um estreito trilho à esquerda. Estou perto penso e olho na direcção que me é indicada. Não podia estar mais errado. Um enorme monte apresenta-se à minha frente e terei de o atravessar…
É talvez uma das partes mais complicadas do percurso, com a dificuldade acrescida de já acusar algum cansaço. Ao chegar ao topo vejo do outro lado um lago e um edifício, e dirijo-me para lá. É o restaurante do parque, agora fechado e com um ar um pouco sinistro. Ao chegar perto, afugento um grande número de animais que por ali descansavam e se alimentavam. Dada a proximidade do lago, este é um local apelativo.
O restaurante dista cerca de 500m da recepção que se avista no cimo de um monte próximo. Esta ultima parte foi bem mais relaxada e com algum tempo ainda para observar aves e outros animais que nesta zona conseguem matar a sede.
Atinjo por fim a recepção. O meu carro lá continua solitário no parque de estacionamento. A funcionária aguarda cá fora e mal me vê começa de imediato a fechar as portas. Termina assim esta aventura em Daan Viljoen que acabou da melhor forma. Foi um passeio fantástico de intenso e excitante contacto com a natureza e com a vida animal africana. Talvez apimentado por este factor de indecisão e de risco vai-se tornar certamente numa aventura inesquecível.
Commentaires
vous êtes fou? Abraço ;)
Boa estadia em África e bons comentários no MBlog: força Mário!
GlobeTrotter
Olá Mário,
Estás um globetrotter de fazer inveja :)
Estou aqui a pensar que todo este conteúdo deveria dar um livro de viagens. Já pensaste nisto? Se calhar já, mas acho que vale este incentivo :D
Beijinhos!
SG
Poster un commentaire
Rétroliens
URL pour faire un rétrolien vers ce message :
http://www.canalblog.com/cf/fe/tb/?bid=61544&pid=14307112
Liens vers des weblogs qui référencent ce message :



















