12 octobre 2011
Rússia 1 - Moscovo

Tinha saudades de me perder no desconhecido...
Talvez por ser num país que esteve durante muito tempo demasiado fechado, talvez pelas latitudes frias e escuras, talvez pela diferente cultura, talvez mesmo até pela distância a que está de nós, Moscovo é daquelas cidades que se tem dificuldade em conseguir imaginar. Supõe-se um daqueles locais sombrios, frios e incógnitos e no final qualquer imagem que queiramos fazer sai sempre desfocada. Mas essa magia acaba por ser muito benéfica e atiça um pouco a maior das nossas gulas, a curiosidade...
Era um dos grandes objectivos, mas que durante anos permaneceu adormecido. Talvez pelas diferentes prioridades ou oportunidades que foram surgindo, ou talvez mesmo pelo meu próprio preconceito em relação ao Norte...
A primeira impressão à chegada não foi má. Depois da Índia, Quénia e Egipto tudo parece limpo e organizado. Não fosse a hora e meia de trânsito até ao hotel e teria ficado logo bastante agradado com toda a recepção.
A Rússia, e Moscovo não é excepção, é um grande desafio. A barreira linguística é enorme e como se não bastasse, existe ainda a agravante de possuírem o alfabeto cirílico, que torna quase impossível a compreensão de tudo e mais alguma coisa. Pelo menos no início.
O primeiro dia começa logo complicado. A primeira operação da manhã, tão simples quanto comprar um bilhete de metro, torna-se num berbicacho. A senhora da bilheteira apenas fala russo e não se mostra disponível para fazer qualquer esforço. Eu queria um bilhete de 20 viagens, faço um gesto para tentar demonstrar o que quero e abro os dedos das duas mãos duas vezes. Ela pega na calculadora, digita e mostra-me: 20. Olho, faço gesto afirmativo. Olho para a maquina registadora e pago! Primeiro desafio, superado!
O segundo não tardou muito a aparecer. Sabia a estação onde tinha de saír e o nome da rua. Não seria difícil se não me estivesse a esquecer de um detalhe importante. O nome das ruas está escrito apenas em cirílico. Vou caminhando, tentando compreender o nome das ruas a muito custo. Até que finalmente aparece e consigo descodificar. Será que acertei? Sim, cerca 300m depois estava no meu destino. Desafio número 2, superado!

O terceiro viria um pouco mais tarde e no confronto com a máquina de café. Instruções indecifráveis e lá pelo meio encontro: “кофе эспрессо”. Deve ser isto penso, Espresso. Logo a seguir um segundo menu e sou obrigado a pedir ajuda. Era relativo ao tamanho e dose de açucar. Quero tudo o mais normal, e finalmente sai o meu café. Desafio 3, superado!

E o número de desafios não ficou por aqui. O maior e talvez mais complicado de resolver acabou por acontecer vezes sem conta e tem a ver com o facto de muito poucos restaurantes terem menus em inglês e mesmo alguém que fale a língua universal.
O primeiro dia livre começa cedo e com a verificação de todos os sítios a visitar. Estou em Moscovo e para começar nada melhor que o Kremlin. Entro no metro e sigo... Saída, estação “Biblioteka Imeni Lenina”.
Como sortudo que sou, sou abençoado com um dia lindo de tempo ameno e radioso. Depois de uma semana de tempo escuro e frio, o sábado amanhece solarengo e com temperaturas não muito habituais em Moscovo nesta altura do ano. Perfeito para conhecer e para vaguear pela cidade.
Mesmo à saída da estação planeada fica a Biblioteca Nacional com a estátua de Fiodor Dostoievsy mesmo na entrada.
Sigo para a zona de entrada no Kremlin. Encontro a bilheteira como que por milagre, nada de inglês e vou para a extensa fila de acesso ao interior do complexo através da Torre da Trindade. Chegada a minha vez, é-me barrada a entrada. Não posso entrar com a mochila ainda que veja senhoras a entrarem com malas maiores. Dirijo-me aos cacifos e reparo nos sinais de proibição de fotografias. Talvez seja uma boa ideia deixar também a câmara uma vez que não a posso usar. Depositados os meus pertences volto à fila e é-me garantido o acesso desta vez. Mal entro no Kremlin, surpresa, toda a gente está na posse de máquinas fotográficas de todos os tamanhos e parece que as fotografias até são permitidas. Do mal o menos, tenho comigo o meu iPhone que funciona como boa alternativa, até em jeito de tributo a Steve Jobs que nos deixou estes dias...
A Torre da Trindade é a grande entrada do Kremlin e á também um local de importância histórica. Por exemplo foi por aqui que Napoleão teve a sua entrada triunfal em 1812. Lopo após a entrada temos o Arsenal e o Palácio Oficial do Kremlin, ambos de estilos bem distintos.
Logo a seguir a Igreja dos Doze Apóstolos guardada pelo grande Canhão do Czar, de cerca de 40 toneladas. Logo em frente surgem a famosa Catedral da Assunção e a Torre Sineira de Ivan o Grande...
Já na parte sul do complexo, o belo e imponente Grande Palácio do Kremlin.
Gozando de vista previligiada para o Kremlin está a outrora mais bela casa particular de Moscovo, a casa Pashkov. Esta elegante mansão do séc. XVIII, que pertenceu ao rico capitão Pyotr Pashkov, acolheu em tempos a Biblioteca Lenine.
Não muito distante, seguindo pelas margens do Rio Moscovo, fica a recém reconstruída Catedral de Cristo o Redentor, um dos projectos de reconstrução mais ambiciosos da cidade. Destruída por ordem de Estaline, foi recentemente recuperada entre 1994 e 1997.
De regresso à zona central da cidade, e no lado oposto ao Kremlin fica então o grande ícone da cidade de Moscovo e da Rússia, a Catedral de S. Basílio. Encomendada por Ivan o Terrível para comemorar a tomada do reduto Mongol de Kazan em 1552 a Postnik Yakovlev, esta obra é inspirada na arquitectura de madeira tradicional da Rússia. Reza a lenda, que Ivan de tão maravilhado que ficou com o resultado, mandou cegar o arquitecto para impedir que este voltasse a criar algo tão belo.
A Catedral fica no extremo sul da Praça Vermelha, outro local emblemático da cidade. É de facto impressionante a dimensão desta praça, ladeada pelo GUM, o Kremlin com o Mausoléu de Lenine e no topo norte o Museu da História. A praça carrega séculos de história, que se sente em cada passo que se dá ao atravessá-la.
Foi única a sensação de "Estou na Praça Vermelha"...
Passando o Museu da História, fica a grande praça Manezhnaya Ploshchad, localização do Hotel Nacional e o grande edifício do Hotel Moskva. É o início do bairro de Tverskay, um dos mais comerciais e boémios da cidade.
Aqui fica também o Teatro Bolshoi, sede de uma das mais antigas e famosas companhias de bailado do mundo. É também um dos grandes marcos de Moscovo.
Local interessante para um fim-de-dia é o bairro de Arbatskaya e em especial a famosa rua de Ulitsa Arbat. Este antigo subúrbio Moscovita transformou-se no séc. XVIII numa zona de aristocratas e mais tarde foi ocupada por profissionais, intelectuais e artistas. O ambiente ligado às artes manteve-se até hoje e é uma importante zona de lazer recheada de restaurantes, bares e cafés.
No Arbat antigo são ainda visíveis alguns símbolos do passado, como as casas de madeira pertencentes aos artesãos que ocuparam a área anteriormente. No final de Arbat, fica localizado o Ministério dos Negócios Estrangeiros, um dos arranha-céus de estilo Gótico-Estalinista presentes na cidade, bem ao estilo Soviético.
A rua Ulitsa Arbat acaba na grande Praça Arbat, onde termina também a zona da Nova Arbat.
A cidade de Moscovo, grande metrópole, possui uma das maiores e mais funcionais redes de metro do mundo. É também o mais movimentado e por lá passam mais passageiros que no metro de Londes e Nova Iorque juntos.
É também caso único o de poder possuír uma rede de metro que funciona também como atracção turística, pois muitas das suas estações são como que pequenos palácios com luxuosos candelabros esculturas e mosaicos.
O segundo dia de visita vingou-se do facto de ter passado um dia a considerar-me um grande sortudo pelo fantástico tempo que apanhei, e logo cedo fui presenteado com frio e chuva, que em muito dificultaram o passeio.
Começo na pequena ilha de Bolotny e cedo chego à Praça Bolotnaya, onde fica uma bizarra escultura de Mickail Shemyakin sobre "As crianças vítimas dos vícios dos adultos".
Na zona ribeirinha da praça, algo verdadeiramente original...
Vou seguindo sempre junto ao rio, com destino a um dos parques mais famosos de Moscovo. Nesta zona da cidade misturam-se edifício arquitectónicamente muito ricos com antigas fábricas transformadas em modernos e confortáveis edifícios de escritórios, condomínios de luxo e hotéis. Num dos extremos da ilha, a gigantesca estátua de Pedro o Grande.
"I follow the Moskwa, down to Gorky Park", assim diz a música e é assim literalmente que corre o meu dia. Alguns Kms depois chego finalmente a Gorky Park, um grande parque urbano na margem sul do rio e recentemente recuperado.
Passo o grande portão de acesso ao parque e de repente tudo se transforma. Toda a agitação, todo aquele burburinho citadino como que desaparece subitamente e dá lugar a um lugar de uma calma apaixonante e de uma paz sem igual em toda a cidade.
Este grande parque de vários hectares possui vários caminhos ladeados de belíssimas árvores, lagos, esplanadas e algumas diversões. As cores outonais dão um toque especial a toda esta paisagem que nos transmite uma energia sensacional e nos dá uma sensação de conforto impressionante.
Apetece ficar a disfrutar, a sentir, a respirar... Apetece ficar e apetece voltar... E voltar, e voltar...
Atravessando a ponte pedonal, o bairro de Khamovnhi, um pacato e interessante bairro da classe alta Moscovita.
Termina assim o passeio por Moscovo e pelas zonas mais importantes da cidade. Termina assim a visita a uma das cidades mais interessantes que já conheci, uma das cidades mais fascinantes e que mais prazer me deu na sua descoberta. Da desfocada incógnita inicial já nada resta. Agora, só memórias guardadas naquele local especial...
E Moscovo é linda nas cores de Outono!
09 octobre 2011
Egipto 3 - Cairo II
Como qualquer cidade que se preze, o Cairo conhece-se a pé, vagueando por ruas, ruelas e ruínhas, mercados e praças, cafés e lojinhas. De tudo se encontra, de tudo se vende, para todos e quaisquer gostos. É esta a vida do Cairo, é esta a vida no Cairo! Palavras para quê...
Sabah el kheir Cairo, Sabah el kheir!!!
Egipto 2 - Saqqara e Dashur
Não muito longe da grande metrópole do Cairo, ficam mais dois importantes complexos de pirâmides de grande interesse, Saqqara e Dashur. Saqqara, a cerca de 30Km a sul do Cairo possui ainda as ruínas de um vasto complexo funerário que se extende por cerca de 6Km.
A viagem só por si é bastante interessante. É complicado deixar a cidade do Cairo, mas assim que os subúrbios começam a ficar para trás, e se começa a entrar no Egipto profundo, tudo se transforma e tudo ganha um ar bastante mais autêntico. Cada aldeia, lugar ou rua tem o seu ritmo e a sua função neste complexo sistema bastante mais primitivo mas que continua a funcionar século após século. Vendedores, carroças, motos, animais, uns vivos, outros mortos e pendurados, pessoas, pessoas e mais pessoas...
A pirâmide principal de Saqqara, onde se encontrar o complexo funerário de Djoser, rei da III dinastia egípcia, possui também a particularidade de ser escadeada, dado a sua construção em várias fases.
Não tão imponente como Giza, Saqqara não deixa ainda assim de ser um local de grande valor. O grande complexo de ruínas, algumas em muito bom estado, são um contributo valioso e tornam este local de passagem obrigatória para quem visita o Cairo.
Seguindo viagem chega-se a Dashur, outro importante complexo com a pirâmide principal de Dashur, que se pode visitar por dentro, e a pequena pirâmide "curvada", cujo nome deriva da diferença de curvatura da base e do topo.
Complicada foi a visita ao interior da pirâmide principal de Dashur, pois além da interminável descida por um pequeno corredor baixo e abafado, onde era necessário andar quase de gatas por umas boas dezenas de metros, no interior um intenso cheiro a amoníaco e a falta de oxigénio trazem ao de cima sentimentos bastante claustrofóbicos a qualquer pessoa. 2 minutos, chega, é hora de voltar à superfície!
18 octobre 2010
Egipto 1 - Cairo I
Deixe que a sua vida seja um exemplo a ser seguido por muitos.
_ Hey Rambo?!
Hum... Quem? Eu? Sempre era para mim... Mesmo não tenho uma fita na cabeça, uma metralhadora a tira-colo, um físico de segurança de discoteca, sabendo falar e não tendo cara de mau... Bom, deve ser dos meus Ray Ban!
Estou em pleno Egipto onde cheguei à quase uma semana em mais uma das minhas viagens patrocinadas. Um pequeno projecto neste grande país com milhares de anos de história. A chegada não poderia ser mais bela. Era noite e sobre o Cairo observavam-se centenas de torres iluminadas em tons de verde. Eram as torres das muitas mesquitas em destaque nesta imensidão de ténues luzes desta grande metrópole com mais de 18 milhões de pessoas. Observo ainda numa das voltas de aproximação à pista uma das pirâmides de face iluminada. Que grande recepção!
Saio do aeroporto e não encontro ninguém à minha espera como era devido. O motorista já tinha ligado e devia estar do lado de fora do terminal. Não o encontro. Ligo, diz que está, mas não me vê... Eu não vejo nada... Ele também não... Depois de muita discussão chegamos à conclusão que ele está no terminal errado. Eu no 1, ele no 3. Começas bem Ahmed!
Sexta-feira, primeiro dia do fim-de-semana no Egipto, combino com o Ahmed que me vá buscar às 10h da manhã. À hora certa lá estou à porta do hotel e nada do Ahmed. Espero um pouco e ligo. Diz-me que chega em 10 minutos, espero 20. Está a ficar tarde e o dia demasiado quente, mas não podia esperar outra coisa.
Seguia montado no meu camelo em direcção às famosas pirâmides de Giza, nos arredores do Cairo. A viagem começa ainda neste tipo de subúrbio onde por coincidência parámos junto a uma loja de um tipo que organiza viagens às pirâmides de camelo e que por coincidência até conhecia o Ahmed. Discutimos o preço, pede 400 libras egípcias, consigo por 200. Serpenteamos pelas ruas de Giza e fugimos da entrada oficial das pirâmides. Estamos cada vez mais longe... Não percebo, ou melhor, percebo... É então que sou abordado por um tipo sentado no passeio e que deve estar a tentar vender alguma coisa. Chamaste-me Rambo?! Já não quero nada contigo!
Entramos por uma porta "não oficial" onde junto com o bilhete vai uma nota de 10 libras e assim conseguimos entrar eu, o miúdo que orienta o camelo, o guia e o seu cavalo.
Mas não fiquei a perder, a entrada não oficial leva ao deserto e a aproximação às pirâmides é feita a partir daí. Mais uma vez amei o deserto, o vazio e o silencio absoluto. Evitámos os caminhos cheios de turistas, de confusão e vendedores. Tudo muito mais tranquilo e natural.
Tenho a pirâmide de Khafre mesmo à minha frente. À direita a de Khufu (Cheops) e à esquerda e mais pequena a de Menkaure. Avistam-se ainda algumas menores. Muitas escavações, ruínas e buracos.
O impacto é grande. Mesmo não não sendo tão impressionantes como o que idealizamos no nosso imaginário, as pirâmides de Giza conseguem ser algo de uma dimensão incrível e verdadeiramente fascinantes.
A excepção vai mesmo para a Esfinge que é de dimensão bastante reduzida pelo menos em comparação com tudo o resto e com as ideias que previamente formamos dela.
Visita terminada, o calor aperta e está mesmo na hora de voltar. Saímos desta vez pela porta oficial o que torna o regresso ao ponto de partida, a pequena lojita, bastante mais curto. Mas não sem ainda contar com alguma emoção à mistura ao ver-me a mim e ao meu camelo sermos quase espalmados entre um autocarros de turistas e uma carrinha estacionada...
O segundo dia de passeio foi dedicado à Citadela, um pequeno complexo localizado numa colina a sudeste da cidade. É composta por 3 mesquitas, uma delas bastante interessante, vários museus e alguns terraços com uma vista priveligiada sobre a cidade. Apanho uma boleia do Ahmed até à entrada e fico por minha conta...
As mais interessantes e acessíveis são as mesquitas de An-Nasir Mohammed que data de 1318 e a grande mesquita de Mohammed Ali bastante mais recente. Onde está o Mohammed? Olha o Mohammed ali!
A vista é impressionante sobre uma das zonas mais antigas e típicas do Cairo.
Terminada a visita, começo então a descer a colina em direcção à Midan Salah ad-Din, uma praça algo interessante pela proximidade às mesquitas de Mahmoud Pasha e Madrassa do Sultão Hassan.
Enveredo então pela rua As Salbiyya, uma pitoresca rua onde se encontra de tudo um pouco e onde se vive verdadeiramente esta atmosfera do Cairo, de modo a chegar à grande mesquita de Ibn Tulun.
A mesquita foi contruída entre 876 e 879 DC e entre muralhas possui uma grande e imponente praça. Ao fundo o minarete, acessível através de uma escada em caracol e de onde se obtém de novo uma vista explêndida.
Finda a visita, mais uma vez hora de regressar que a temperatura já atinge quase os 40ºC.
23 août 2010
Roménia 1 - Timisoara
Viajar é um vício tal como qualquer outra droga,
Se o tornamos rotina, não conseguimos deixar,
Com direito a ressaca e tudo...
MB
Timisoara é a quarta maior cidade da Roménia e bastante conhecida por ter sido o local onde começou a revolução contra Ceausescu. Os poucos pontos de interessa da cidade estão concentrados num pequeno centro histórico e principalmente em duas praças principais, a Piata Unirii e a Piata Victoriei.
É, ainda assim uma cidade bastante agradável e tranquila. Apesar de se encontrar em mau estado de conservação, consegue ser bastante simpática.
A Piata Unirii é uma grande praça com duas igrejas, uma Católica-Romana, outra Ortodoxa, e um dos poucos locais da cidade relativamente bem restaurado. Possui várias esplanadas e restaurantes bastante agradáveis.
Um pouco mais a sul fica a Piata Victoriei com a sua imponente Caedral Metropolitana ao fundo. É também um local de encontros e de convívio com inúmeras e confortáveis esplanadas de ambos os lados da praça.
O que mais reti foi mesmo o facto de ser uma cidade extremamente tranquila e de uma calma incomparável para uma cidade desta dimensão. Muito pouco trânsito com as pessoas a adoptarem o uso de transportes públicos e bicicletas.
E claro, os fantásticos parques junto ao canal Bega...
22 août 2010
Tunisia 13 - Tunis, Medina
Allahu akbar, Allahu akbar
Ash'hadu an la ilaha illa-llah
Ash'hadu anna mūhammadar rasulu-llah
Hayya `Ala-s-salat
Hayya `Ala-l-falah
Tunis, domingo de manhã. Acordo ao som de uma das primeiras rezas do dia difundidas por um de tantos megafones espalhados pela cidade em uma de tantas mesquitas. O som é inconfundível e surge sempre associado ao mundo árabe. Allahu akbar, Allahu akbar...
Para este último Domingo ficou a visita à medina de Tunis, ao centro da metrópole que continua ainda hoje a ser o grande centro comercial da cidade. Quero conhecer a medina, quero-me perder lá, entrar e sentir toda aquela magia.
Medina quer dizer normalmente cidade antiga ou cidade velha e designa o centro histórico de muitas das cidades árabes. Caracterizam-se pelas suas ruelas estreitas, becos, arcos e contrução desordenada muitas das vezes sob as ruas.
Subo a grande avenida Habib Bourguiba e logo de seguida a avenida de França até desembocar na Place de la Victoire e a principal entrada da medina de Tunis, que guarda ainda uma das suas portas, actualmente resumida a um arco.
Entro pela Jemaa Zaytouna, uma das ruelas que penetra na medina e talvez a mais turistica. De um lado e do outro os bazares sucedem-se e amontoam à porta todo o tipo de artigos. Aqui tudo se vende, aqui quase tudo compra, aqui tudo é negócio.
Aos poucos e poucos a medina começa a revelar-se. A arquitectura mostra-se de ambos os lados, a atmosfera sente-se e o corropio acentua-se. Aqui quase que não há carros e tudo é transportado à mão.
Deixo-me perder pelo emaranhado de ruas e ruelas e aos poucos começo a deixar de ver turistas. Entro na verdadeira medina, aquela que é só para alguns...
Noto que não é à toa esta configuração de casas, ruas, páteos, becos, arcos e túneis. Para os árabes nada é em vão e até nisto, que para nós é um verdadeiro caos, se sente a razão de ser e a ciência associada. As ruas estreitas protegem a cidade tanto do calor extremo do verão como do frio do Inverno e do vento. Penso que tem também a função de manter as pessoas e as famílias mais unidas, mais em comunidade e de maneira que se possam entreajudar mais. Estão por isso habituados a ser prestáveis e afáveis mesmo com estrangeiros.
No topo de uma rua enegrecida pela fuligem dos vários ferreiros que aqui trabalham fica a Bab Jedid, mais uma das três principais portas da cidade e a mais intacta de todas.
Bem na fronteira fica também Kasbah, zona ocupada por vários edifícios governamentais e também pela imponente mesquita com o mesmo nome.
Regressando às apertadas ruas noto também que não vejo um estrangeiro há várias horas e que nesta zona as pessoas já me olham de maneira diferente e com mais admiração. Não estranho, pois o formatado turismo da Tunisia não tem tempo para se perder assim várias horas na turtuosa medina.
Algumas horas depois, chego à movimentada Halfaouine com um dos seus famosos mercados. De frutas e legumes até doces, carnes e especiarias é possível encontrar de tudo.
É esta a verdadeira e autêntica Tunísia e a sua fiel cultura.
Este é daqueles lugares em que nos precisamos de perder para os encontrar verdadeiramente...
06 juin 2010
Tunisia 12 - Sidi Bou Said (II) & La Goulette
A Tunisia é um país que me é bastante familiar. Não que aqui tenha estado muitas vezes ou por um longo período de tempo, mas porque as semelhanças com Portugal são muitas. As pessoas, a arquitectura, o clima e até parte da gastronomia têm muito em comum com Portugal e em especial com o Algarve. Tudo isto faz com que tenha a estranha sensação de estar em casa.
Bom, na realidade não sei se será só por isto... Numa conversa recente com uma amiga ela referiu o facto de numa das minhas vidas passadas eu poder ter sido árabe e estar agora rever-me nestes ambientes. Apesar das minhas tendências budistas não acredito muito nestas teorias, mas o que é certo é que existem alguns sinais algo sobre-naturais que indiciam algo mais forte.
No fundo temos origens comuns com o povo do norte de Africa e fazemos parte ainda dos parentes afastados do Al-Andalous. No meu caso, e para além da fisionomia que aqui me faz passar muitas vezes por local, sou originário ainda de Al-Qubasha, terra onde ainda existe um castelo ( ou parte dele ) dos mouros e cuja pertença parece que foi de um tal Ben Almanzor. Origens à parte, o que é certo é que mantenho uma grande admiração pela cultura árabe, gosto do deserto, adoro o Al Gharb e até aprecio muita da musica por eles produzida. Há ainda outras questões ainda mais interiores... Quando criança, costumava no Algarve ir para o terraço à noite com o meu rádio fazer uma busca pelas rádios marroquinas que se conseguiam captar desde lá. Ficava horas se possível a escutar as lenga-lengas e a musica que passavam. Perdia também imenso tempo com a televisão a tentar o mesmo. Era algo mágico e que nunca consegui explicar. Havia ali uma atracção, uma admiração e um chamamento muito fortes e no fundo algo misteriosos... Talvez tenha mesmo sido árabe, e numa outra asiático, porque não?!
Tal como havia acontecido em Mumbai, esta é também a minha segunda visita a Tunis, o que me deixa algo mais relaxado e com mais tempo para visitar os lugares que mais me agradaram e deliciaram. Claro que em Tunis falar em local agradável e delicioso leva-nos logo a Sidi Bou Said e foi essa claro está a minha primeira opção para estes meus dias de lazer.
Sábado, levanto-me cedo, tomo o pequeno almoço, mochila às costas e meto-me a caminho pela grande Av. Habib Bourgujba em direcção à estação de comboios Tunis Marine. Compro o bilhete e espero pela próxima composição que chegará não tarda nada. A viagem demora cerca de meia hora e começa com o lindíssimo atravessar do lago Tunis até à costa. A partir daí, a viagem torna-se mais lenta dada a grande quantidade de paragens desde La Goulette, Cartago até ao meu destino.
Sidi Bou Said é uma pequena vila a cerca de 17Km de Tunis na encosta de um pequeno monte mesmo junto ao Mar Mediterrâneo. Um lugar pitoresco e apaixonante com a sua mistura de casas divinamente brancas com as suas portas e janelas num lindo azul vivo e as bungavíleas que por elas trepam um pouco por todo o lado e vão adicionando um pouco mais de côr à paisagem. Cafés e lojas de artesanato preenchem os espaços um pouco por todo o lado dando-lhe uma atmosfera simpática e envolvente. É actualmente um dos locais preferidos na Tunisia e como tal é invadido diariamente por centenas de turistas.
No centro do povoado ergue-se a mesquita com a sua imponente torre visível de praticamente todos os locais.
Uma manhã para se estar... Para se viver... E para se sentir...
Desço o monte e dirijo-me de novo à estação de comboios. La Goulette o próximo destino.
La Goulette é famosa pelo seu historico porto, pelas praias e bons restaurantes. A primeira impressão ao saír do comboio traz à memória as nossas cidades costeiras do Algarve à 20 anos atrás, com as suas ruínhas típicas, pessoas à vontade nas ruas e um constante cheiro a peixe grelhado no ar, que imediatamente me abriu o apetite. No entanto não quis almoçar sem antes visitar o Borj-el-Karrak, o principal monumento da vila e que é no fundo um impressionante forte em muito mau estado do tempo do império Otomano. Primeiro contratempo, o forte está fechado e com aspecto de estar a iniciar obras de recuperação. Bem precisa...
Passeio pela marginal, um saboroso almoço com peixe grelhado muito ao estilo português, mais um passeio e uma visita à praia para relaxar e onde desfrutei de uma bela shisha.
Esta é no fundo a Tunisia mais desconhecida dos turistas. Apesar de ter praia, La Goulette está fora de todos os roteiros turísticos e é talvez por isso que se mantém tão interessante. A praia é má e só atrai mesmo locais e algumas gentes de Tunis pela proximidade, mas mantém toda a sua autenticidade. A vila não mudou e continua aquilo que sempre foi. Sempre autêntica! Eu era muito possivelmente o único estrangeiro nesta praia e talvez um dos poucos estrangeiros que sabe o que é uma praia verdadeiramente Tunisina e de hábitos puramente Tunisinos.
Fim de tarde e o regresso a Tunis novamente de comboio. Comboio completamente cheio, maioria rapazes que iam fazendo a festa com cantigas populares e batuques nas paredes do comboio e eu, enlatado sem me conseguir mexer...
29 mai 2010
India 8 - Mumbai III - Olhares
Faça da passagem do tempo uma conquista e não uma perda...
India! A India é um país de pessoas. De pessoas, pessoas e mais pessoas. Um país de massas, de gentes, confusão e caos. Depois, se procurarmos bem, no meio das pessoas conseguimos encontrar cidades, casas, prédios, estradas, carros, riquexós e... Mais pessoas!
É um país de gente autêntica, pura e fascinante. Gente verdadeira que enche a alma e que torna este universo tão especial. Gente com um olhar transparente que não é mais do que o reflexo de toda a sua beleza interior.
Prova disso mesmo é talvez o facto de ser o povo mais fotogénico que conheci. Nada é tão verdadeiro e autêntico como uma fotografia, e nenhum indiano consegue ficar mal aos olhos de uma objectiva.
Esta minha segunda visita a Mumbai teve um aspecto bastante positivo. O facto de já haver cá estado e visitado todos os pontos de interesse libertou-me para uma visita muito mais descontraída. Uma visita onde foi possível viver mais a cidade, a cultura e as pessoas. Onde o tempo não importou nunca e onde os sentimentos foram levados ao extremo. Este país é lindo à sua maneira, é magico!
"Para ver claramente, basta mudar a direcção do olhar" - Antoine de Saint-Exupéry
Impressionante também é a capacidade dos Indianos em encontrar algum equilíbrio no meio de todo este caos e de manterem alguma organização, ainda que muito à sua maneira. Para um qualquer ocidental, nada aqui faz sentido e não se consegue encontrar nada a funcionar. No entanto o dia-a-dia decorre sob alguma normalidade e estes milhões e milhões de pessoas vão fazendo as suas vidas e sobrevivendo num meio nada confortável.
As ruas são palco de todas e mais variadas actividades. Tudo se compra, tudo se faz, tudo se rentabiliza. Num universo de milhões a luta pela sobrevivência é acesa.
O atento olhar do motorista de taxi captado através do retrovisor...
E porque é domingo, é dia de passeio, de roupas bonitas e coloridas, de cricket e descanso.
Os domingos podem ser também aproveitados para uma ida à famosa praia de Chowpatty. Ainda que os Indianos arrisquem a ir a banhos, estes estão proibidos dados os elevados índices de poluição da água.
A India é ainda uma sociedade muito reprimida sexualmente e com um conjunto de regras ainda muito apertadas. Nas praias isso é bastante visível ao vermos as mulheres a tomarem banho vestidas.
Para terminar, um pouco mais de India, de Mumbai e desta magia contagiante. Um país que individualmente não tem nada de atractivo; sujo, com maus cheiros, degradado, demasiado quente e húmido, com trânsito caótico, barulhento e muito, mas muito confuso. No entanto é um país que deixa sempre saudades, uma imensa vontade de voltar e de sentir tudo isto de novo.
Tudo isto não tem explicação... É mágico!
25 avril 2010
Quénia 6 - Amboseli, Aldeia Masai
Um dos pontos altos da minha viagem a Amboseli foi sem dúvida a visita à aldeia Masai. Este interessante povo, preserva ainda muitas das suas tradições culturais, mesmo com toda esta pressão da globalização. Tribo guerreira por tradição, os Masai são altos e esguios e têm como cor oficial o vermelho, sempre presente nas suas vestes.
A viagem à pequena aldeia foi acompanhada pelo filho do chefe da aldeia, que às 7 da manhã em ponto lá nos esperava à saída do lodge. O dia estava algo escuro e a prometer chuva e um ventinho demasidado fresco ia varrendo a planície.
O guia deixa-me à porta da aldeia e diz que fica por ali... Eu e o futuro chefe da aldeia aproximamo-nos da entrada até que sou como que presenteado com uma pequena demonstração dos seus rituais guerreiros. É algo intenso o ritual e algo intimidativo, não fosse eu saber que é apenas um pouco para turista ver.
De seguida sou convidado a entrar e passar pela estreita porta que dá acesso à pequena aldeia, e que está vedada com uma cerca constituída por pequenos paus e alguns arbustos. Do lado de dentro vêm-se já algumas casas e mais algumas áreas vedadas onde são guardados os animais.
Na aldeia é tudo ainda bastante rudimentar e segundo as regras que têm passado de gerações em gerações. Um bom exemplo é a maneira como fazem o fogo...
As casas são feitas de uma mistura de barro com estrume dos animais e revelam-se bastante sólidas, ou pelo menos o suficiente para aguentarem as adversidades do clima africano.
Depois da visita às pequenas habitações, foi a vez de conhecer a escola onde um grupo de pequenos alunos de todas as idades estava a ter uma lição de inglês. Orgulhos, lá iam lendo um parágrafo em coro, ainda que eu não tenha percebido bem se sabiam o que estavam a dizer.
De seguida uma pequena demonstração de um mercado Masai e o final desta interessantíssima e simpática visita.
À saída, uma rapariga pergunta-me de onde sou. Depois da minha resposta, acrescenta _ "Sim, vocês lá no teu país são muito mais ricos do que nós". Eu sorri, e disse que dependia... Tudo depende do que consideramos "riqueza" e do real valor que damos às coisas mais importantes.
_Vocês têm muito mais dinheiro do que nós...
_O dinheiro não é tudo _ respondi. _ Há coisas muito mais importantes... Era bom que vocês não se deixassem influenciar por isso... Vocês têm muito mais, têm o necessário. Casas, comida, liberdade e sobretudo... Esses sorrisos fantásticos!
Quénia 5 - Amboseli
"Your work is to discover your world and then with all your heart give yourself to it"
Buddha
Amboseli, um dos principais parques naturais do Quénia, é um imenso território localizado a norte do monte Kilimanjaro, o mais alto de Africa. É esta proximidade que lhe confere características únicas, e que o tornam tão atractivo para a grande variedade de animais que aqui vivem. As águas resultantes das neves que vão derretendo no monte alimentam estas zonas baixas mantendo os pântanos e os lagos vivos durante todo o ano.
A grande maioria dos residentes são Masai, assim como em toda a parte sul do Quénia. É frequente encontrá-los um pouco por todo o lado quer estejam no pastoreio ou simplesmente de passagem nas suas frequentes deslocações numa terra que, quanto e mim fornece das melhores e mais bonitas paisagens africanas que conheci.
A região é famosa pelo grande número de elefantes que aqui residem e cujas manadas preechem o horizonte para onde quer que se olhe.
Mesmo não tendo a mesma variedade de espécies de outros parques, em especial Masai Mara, Amboseli mostra-nos ainda assim um numero significativo de diferentes animais com grande destaque para os hipopótamos que ainda não tinha conseguido ver no Quénia.
Pelas suas características, o parque apresenta as condições ideais para a fixação de um grande número de aves, tornando-se assim um dos melhores locais do país para sua observação.
Amboseli é de facto um lugar especial. Um lugar onde se sente, vê e respira Africa, onde a imensidão de fantásticas paisagens nos envolve e nos faz sentir como parte daquele lugar, daquela realidade. Tudo com o seu grande protector em pano de fundo, o Kilimanjaro.
Africa acima, Africa abaixo, a magia das cores, da terra vermelha, do verde do mato, de um povo guerreiro, de uma vida...
E um último olhar para trás... Sempre como o Kili a marcar presença...



























































































































































































































































































































































































































































